Parasitose Intestinal – essa esquecida realidade brasileira

Parasitose Intestinal - essa esquecida realidade brasileira

Quase não se fala em parasitose intestinal. A preocupação das mães com a anemia, a fraqueza e o abatimento dos filhos foi substituída pela alimentação saudável, vacinação, saúde dentária, etc.. As bichas ficaram para segundo plano. Já foi o tempo em que o exame de fezes era solicitado com exagerada freqüência, as fezes eram vasculhadas na procura de alguma parasita e uma simples coceira anal, motivo para a ingestão aleatória de vermífugo. Todos os males eram tratados com antiparasitários. Mas a roda do tempo girou. Não mais se pensa na lombriga, no verme do amarelão, no aspecto de macarrão da tênia, no oxíurus, etc.. Porém, o Brasil continua sendo um país tropical, com precárias instalações sanitárias e higiênico-dietéticas da população, com 30 milhões de indivíduos vivendo na extrema pobreza. A população rural continua sem assistência médica e sobrevive desprotegida e ameaçada, esbarrando a cada instante com um inimigo oculto numa planta, num animal, na água e no solo. Justamente onde se escondem as larvas e os ovos dos vermes, que penetram ativamente na pele, como no amarelão e esquistossomose ou são engolidos com a água poluída de rios e riachos, como a lombriga, tricocéfaIo, giárdia, ameba, etc..

Cerca de 45 milhões de brasileiros são portadores de lombriga, 20 milhões sofrem de amarelão e 6 milhões de esquistossomose. O número de vermes que pode parasitar o ser humano e imenso, assim como são variados os malefícios que podem causar (ação tóxica, espoliativa, traumática, irritativa, enzimática, etc), principalmente porque, em geral, há infestação múltipla e problemas nutricionais associados. Os sintomas apresentados pelos parasitados também variam com o tipo de protozoário ou verme. Na giardíase (Giárdia Iamblia), ocorre diarréia aquosa e fétida; na amebíase (Entamoeba histolytica), diarréia sanguinolenta; na esquistossomose, diarréia intercalada com prisão de ventre, com evolução para “barriga d’água”; na teníase (Taenia solium e saginata), déficit nutricional com perturbação intestinal; na lombriga (Ascaris lumbricoides), dor abdominal, falta de apetite e constipação intestinal; no amarelão (Ancylostoma duodenale), anemia, fadiga, perda de peso, geofagia, alterações de apetite e hábito intestinal; na oxiuríase (Enterobius vermicutaris), prurido anal diurno ou noturno; no estrongiloidíase (Strongyloides stercoralis), dor abdominal com prisão de ventre ou diarréia crônica; na tricuríase (Trichocephalus trichiurus), quase sempre assintomático, etc..

A presença do verme é confirmada por meio do exame parasitológico de fezes, que deve ser realizado através de três amostras, para aumentar a positividade do método. O tratamento vai depender do tipo de verme, porém existem alguns vermífugos (mebendazol e albendazol) polivalentes, que matam diversos vermes. Atualmente o tratamento das parasitoses intestinais é relativamente simples existindo uma gama razoável de medicamentos, que são administrados por via oral em dose única e com poucos efeitos colaterais. Acabou o sofrimento para a erradicação dos parasitas. Não faz muito tempo era necessária a internação hospitalar do indivíduo para a administração de medicamentos, como na esquistossomose e tênia (cisticercose).

As condições de subsistência da grande maioria da população brasileira e a precariedade do serviço médico público tornam difíceis as ações preventivas contra as verminoses. Não basta tratar do parasitado, pois as fontes de contaminação persistem, como fossa negra, água não tratada, fatia de higiene corporal, contaminação de moscas e baratas, andar descalço, ingerir carne de porco e boi crua ou mal cozida, ingerir alimentos mal lavados, não lavar as mãos antes das refeições e depois de usar o banheiro, etc.. Desta forma, uma simples bota, a mão bem-lavada e a comida bem-feita podem reduzir as parasitoses intestinais e salvar vidas, complementadas com um trabalho sério e persistente de educação sanitária. Basta uma boa orientação para aliviar muito sofrimento. O homem do campo deve ter consciência de que hábitos alimentares saudáveis, como preparar um alimento não contaminado, fazer uma necessidade fisiológica, construir uma casa ou programar uma fossa do sítio são detalhes que podem implicar na sua saúde.

A ciência médica avança atropelando tabus e conceitos ultrapassados, porém não se deve esquecer das enfermidades simples, mas corriqueiras, as esquecidas parasitoses intestinais. Como dizia o velho mestre “a doença incorporou-se ao indivíduo, que a exibe como uma propriedade intrínseca”.

Parasitose Intestinal – essa esquecida realidade brasileira
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